Profissional aderido ao Código Ético - Barcelona

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Conheça meu trabalho com as veredas do tarô

Leia, na barra lateral direita, minha proposta de reflexão, relacionando Arcanos Maiores a caminhos concretos.
Espero que goste! E que se divirta!...rs


terça-feira, 11 de novembro de 2014

SINAIS DO MAGO

http://oglobo.globo.com/fotos/2009/04/28/28_PHG_rio_maritacas.JPG



Quando meu pai faleceu, eu vinha de um tombo grande, ainda lambendo feridas. A esse tombo se juntou essa bomba nova: era eu sem pai, pela primeira vez no planeta.
Eu estava triste, mas acima de tudo confusa e muito assustada. Como ia ser esse mundo sem pai?
Sempre preferí me entender sozinha, ou talvez tenha sido obrigada a isso, não sei. Mas, seja como for, resolvi viajar e ficar uns dias na praia, todos nós: eu e eu e a confusão e o medo.
Fomos para a praia da minha infância, a praia que tinha devolvido, a mim e a ele, uma relação que - se a vida não fosse tão apressada em acabar - talvez tivesse encontrado um espaço particular que a gente nunca tinha podido abrir.
Lá fui eu, sem avisar ninguém, só minha mãe, o eterno (pensava então) farol prá onde voltar.
Praia no inverno é melhor, porque eu nem pensava mesmo em sair por aí sem roupa, razões que se explicarão adiante.
Eram dias de céu muito azul e sol espalhado, quase calor, mas uma brisa feita de mar e um pé no frio. Eu ficava muito tempo olhando a areia, o mar e o quase nada de gente por ali. Pensava sem pensar em coisa nenhuma, o melhor jeito que eu sei de me deixar pensar, sem ficar perturbando.
Eu preferia o sossego de gente nenhuma, mas no hotel em que me hospedei estavam uns poucos grupinhos e um casal, provavelmente em lua-de-mel.
Os dois eram muito jovens e bonitos, porque a juventude nos deixa belos mesmo quando não o somos, simplesmente porque é nisso que acreditamos. Então, eram belos. E era gostoso vê-los, no pouco que eu saía do meu não-pensar e via algo do mundo aqui fora.
Um dia, sentei na praia em frente ao hotel, embaixo de um quiosque de sapê. Era um dia mais quente e eu estava especialmente triste; as saudades doíam tanto, mas tanto. Coisa mais cretina que é saudade. Uma dor que fustiga e rói sem dó e não há o que melhore, só a lerdeza do tempo, sistema mais infernal.
Então sentei quietinha, na areia mesmo, e tentei chorar por trás dos óculos escuros, em silêncio, prá não incomodar nem siri. Como o tempo esquentou, eu tirei a camiseta, porque estava de maiô por baixo e uma saia feita da canga.
No meio da minha choração discreta, eu comecei a ouvir um risinho, mas eu estava não-pensando, então nem registrei muito. Mas dali a pouco entrou um cochicho chutando a porta do meu recolhimento e mais um risinho. E mais cochicho. E risinho. Então, virei a cabeça em direção a esses sons e vi o casal em lua-de-mel. E não liguei, porque conheço minha neurose, falei "shhh" prá mim mesma e voltei a olhar pra areia. Mas começou tudo de novo e aí não dava mais pra fingir que não era nada. Era comigo, era pra mim. era de mim. Riam e cochichavam, porque uma gordinha estava sozinha, de maiô, escondida no inverno e nem jovem mais era ela, algo que lhe devolvesse algum crédito. Ou era o que eles pensavam, porque quando eu olhei de novo, ela riu aberta e sarcasticamente mesmo, embora ele ficasse um pouco constrangido com o que viu no meu olhar.
Então, quando eu já estava no embate entre chorar até derreter ou encher ela de porrada, porque quando eu fico com medo e magoada eu instantaneamente fico muito, muito zangada, vi um homem levando uma bicicleta pela mão, lá meio longe.
Ele veio vindo e foi chegando perto e eu pude ver uma maritaca empoleirada no guidão. Aí ele parou e apoiou a bicicleta e acenou com a cabeça prá mim, de leve, como um cumprimento. Eu ia sorrir de volta, quando vi a maritaca descendo da bicicleta e ir andando até a beira da água, onde a marolinha faz aquela espuminha boa. E a maritaca começou a tomar banho, splash prá lá e a onda vinha, ela corria um bocadinho e corria de volta e splash prá cá. Quando ela resolveu que já estava toda asseada, sei lá, ela veio voltando, andando, e tchuc tchuc tchuc, foi subindo de novo até o guidão. Inda se chacoalhou toda, feito um cachorro, que até respingou em mim.
Eu comecei a rir e perguntei pro moço:
- Ela não voa, porquê? O senhor cortou a asa dela, foi? Não me diga isso...
- Nada, não senhora. A passarinha, eu trouxe ela do Ceará, no meu colo. Quando eu estava pra pegar o ônibus aqui pro Sul, vi que ela tinha caído de um ninho. Catei e procurei o ninho, a mãe, mas nada. Não achei. Estava lá eu pensando no que fazer, quando me chamaram, que o ônibus ia embora. Então, resolvi que era melhor ela vir comigo, do que ficar ali pra virar comida de gavião. E viemos, dois dias num ônibus, mais não sei quantos em outro. Eu fui dando água e migalha de coisa e ela foi crescendo sempre comigo.
Olhei a passarinha. Realmente as asas estavam em ordem, ela parecia feliz.
- Mas então por que ela não voa?
- Ah, dona, ela só não sabe que sabe voar.
E abriu um sorrisão moreno e franco, me olhando nos olhos de um jeito que me fez sorrir e entender, coisa pra nunca mais esquecer.
Olhei pro lado e o casal tinha sumido.



[essa estória foi postada primeiramente numa comunidade da qual eu fazia parte: www.yubliss.com]

Trecho do meu livro - Os Amantes



 

Trecho (extraído do Livro "Tarot Luminar - Refletindo sob as luzes dos Arcanos Maiores", em "Os Amantes"):



"Apaixonados: a esse estado enlevado damos o nome de amor e a ele quase todos nos entregamos desvairadamente, como se fosse uma droga. Depois, não sabemos porque ele não durou para sempre, ou como foi que acabou entre tapas e gritos, ou apenas por que antes era uma necessidade tão visceral e de repente se transformou em algo banal. Não compreendemos por que sentíamos que aquela pessoa era nossa alma gêmea finalmente descoberta e agora... Agora é só o João, ou só a Maria."




Leia mais sobre as razões das escolhas que fazemos.
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Se preferir, PEÇA DIRETAMENTE PELO MEU EMAIL mihatarot@gmail.com

terça-feira, 7 de outubro de 2014

KINDLE? TEMOS!


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sábado, 14 de dezembro de 2013

Minha não previsão para 2014

Temperança
Tarot de Marseille Fournier




Minha não previsão para 2014



O texto foi publicado no Clube do Tarô, um site orquestrado por Constantino K. Riemma e que eu gostaria que vc conhecesse, se ainda não conhece.


Clique no link abaixo e leia o que escrevi sobre 2014:


Espero que goste do site e do meu texto também!



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tarô via internet




Tarô via internet

      Para quem acha esquisito ou não confiável o atendimento via skype, saiba qual é minha posição a esse respeito, publicado no site do Clube do Tarô. Clique aqui! 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ENTREVISTA SOBRE MINHA VISÃO DO TARÔ

 https://writingonthesidewalk.wordpress.com/2011/10/24/can-we-talk-writing-effective-dialog/


Leia minha entrevista na Blocos on Line, feita por Leila Míccolis, reconhecida escritora, respeitadíssima poeta e editora da Blocos.

Clique aqui. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Volare. O Louco explica o Amor

http://can-express-yourself.blogspot.com/2011/12/gimme-freedom.html

    
    O amor pede generosidade, empatia, gentileza, expressão, autonomia das partes e, o fundamental: liberdade. E, evidentemente, não tem nexo algum exigir, automaticamente, durabilidade de um quadro desses.

    Para que o amor perdure, é necessário que a sintonia entre os amantes mantenha-se sem nunca perder a força e, em geral, isso não ocorre pelo fato simples de que, vivos, somos movimento, mudamos constantemente, mesmo sem perceber. Sim, alguns pares mantém essa sintonia e sem que isso implique em estagnação. São os amores de muitos anos que eventualmente vemos por aí, mas o problema está no fato de que algo existir não implica em que certamente vá existir na vida de cada um de nós e, menos, para sempre. O premio da loteria existe, alguns ganham, mas nem por isso todo mundo garantidamente ganha uma vez na vida. É mais provável ganhar pequenos premios do que aquele acumulado, aliás. Por outro lado, também é certo que tsunamis também existem, mas nem por isso todo mundo fatalmente enfrentará um.



    Fábulas e contos catequizam-nos desde cedo dizendo-nos que basta apenas esperar “a pessoa certa”, mas isso simplesmente não é verdade. Como também não é verdade que sem isso a vida não tem sentido, o que é bem mais importante. Querer uma companhia é uma coisa, mas quem depende desesperadamente do amor do outro, ou de fora, para reviver, encontrar sentido ou júbilo na vida, é porque não o encontra em lugar algum dentro de si mesmo, para começar.




    Acho que importa, antes, vasculhar o que esperamos quando procuramos o Graal do amor. Nove vezes em dez, não é conhecer o outro, revelar-se ao outro, interagir realmente com o outro. Não é, tampouco, a reenergizante experimentação de um romance o que queremos, mas o amor idealizado, literalmente fabuloso, que traga consigo todas as respostas emocionais e existenciais e, ainda por cima, para sempre. 



http://www.caminhodesantiago.com/walter_jorge/santo_graal/19_santo_graal_xviii.htm

    Na verdade, quase sempre o que fazemos é depositar no outro a responsabilidade total pela nossa completude e felicidade e esperar que, "amando", o difícil desapareça e tudo seja maravilhoso. Além disso, como se o estado amoroso tivesse poderes mágicos, acreditamos que ele combate o envelhecimento e a morte. Ou melhor: que ele impede isso. Bem, assim como uma droga, essa sensação até dura, sim, um tempo, mas, como não está baseada na realidade e como o ser humano é bem mais do que apenas a expressão de seus desejos egoicos, ali adiante fica impossível manter a ilusão. Essa projeção inconsciente, com o tempo, invariavelmente leva qualquer relação a um desgaste, que varia da mera frustração à sensação de carregar um fardo.



http://www.dailymail.co.uk



    Do ponto de vista da estabilidade, o amor simplesmente não é confiável: ele acontece ou não acontece, pode começar e pode acabar, simples assim. E é imprescindível entender que há uma diferença fundamental entre "relação" e "amor": até podemos batalhar para que a relação não se desfaça, desde que ela contenha laços para além do romance, do tesão ou da paixão, mas é bem pouco o que podemos fazer para impedir que o sentimento amoroso, em si, acabe, porque, ouço do Louco, ele tem vida própria.   

    Quando nossas motivações estão unicamente centradas nos caprichos do ego, e para a maioria de nós quase sempre estão, amar sem se apegar é um desafio titânico e a comoção abrupta do fim do amor, ou o aprisionamento (esse sim, às vezes, para sempre) ao sofrimento decorrente de um amor terminado é, como acontece com as drogas, o drama do fim da ilusão, pois na verdade revela nosso ser fragmentado e dependente, cujo centro da vida é depositado em algo assim volátil.

Perceber isso é ficar livre e poder voltar a voar.

sábado, 31 de dezembro de 2011

POR UMA ESTRADA REAL


http://janemcmaster.wordpress.com/2011/11/16/international-day-of-tolerance/


     A coexistência totalmente pacífica entre os homens é, provavelmente, uma utopia.

     Como diria Miss Marple, a natureza humana sendo como é, a interação entre as diferenças será sempre um ideal dificilmente possível. Porém, entre o absurdamente agressivo mundo em que vivemos hoje e uma paradisíaca Atlândida fabulosa, talvez fosse mais sensato abrir mão de carregar mais areia do que pode nosso pequeno Volvo e nos empenharmos em começar pelo micro, antes de querer abraçar o macro.

     Enquanto tagarelamos sobre os maravilhosos mundos que queremos ou poderíamos criar se isto ou se aquilo, na verdade estamos apenas teorizando e só dizendo coisas.

     Por mais bonitas que sejam, palavras apenas não mudam nada.

     Com tanto blabláblá sobre lindos mundos (e sobre alguns não tão lindos, na minha opinião), o fato é que os ajustes realmente possíveis e verdadeiramente transformadores são descartados como café pequeno, pois parecem sumir diante da retumbância dos mega projetos, esotéricos ou científicos, para uma Terra perfeita.

     Noves fora, a verdade é que não se faz coisa alguma. Não onde realmente importa, isto é, dentro de nós. No fundo, todos querem um novo messias, uma solução externa, um papai que nos redima ou salve, um manual prêt-à-porter para seguir como ovelha, sem refletir, sem questionar e sem ter que concluir com autonomia.

     Um planeta melhor e uma humanidade decente acontecem unicamente, exclusivamente, pela transformação do coração e da mente em cada indivíduo, em você e em mim, no seu vizinho e no seu filho, no soldado e no cobrador de ônibus, no carteiro e no banqueiro, na professora e na prostituta, na dona de casa e na balconista, na executiva e no faxineiro.

    Seres melhores é que fazem um mundo melhor e seres melhores só o são se o forem no coração e na alma.

    Um coração genuinamente compassivo, uma mente verdadeiramente tolerante, uma disposição honesta à interação fraterna: esses são os alicerces de um ser efetivamente mais elevado. O resto será consequência.

     Do latim exvigilare, fazer vigília, veio vigilare, velare, que, em francês virou éveiller e finalmente réveiller, acordar, reanimar. Réveillon, então, é despertar e, em português, despertar é tirar do sono, sair da inércia, readquirir ânimo ou força.

     Mentalizo por esse novo ânimo, por essa nova força, por esse olhar desperto e pelo entendimento de quem somos e do que podemos ser. Rezo pela tolerância, pela aceitação das diferenças, pela sofisticação na forma de olhar para dentro e para fora, pelo amor fraterno.

     Que o Réveillon de hoje verdadeiramente nos desperte e nos reanime e que 2012 seja o ano no qual, maravilhosa e milagrosamente, cada um de nós, finalmente, avance com passos reais em direção ao seu ser mais luminar.


http://www.goldmadesimplenews.com

domingo, 20 de novembro de 2011

RAÍCES

http://passagem-promocao.com/pluna-airlines-passagem-promocional-brasilia-buenos-aires/

     Encontrei, no maravilhoso site do Clube do Tarô, um ótimo texto do experientíssimo Nei Naiff sobre a grafia correta da palavra “tarô”.
     O autor discorre e comprova os porquês de “tarô” e não “tarot”, na verdade algo que acaba soando como o óbvio que não tinhamos notado, mas só depois que alguém tão diligente explica isso com tantas minúcias.
     Mesmo percebendo tudo isso, levei uns minutos para entender porque fiquei indignada e confusa, até que algum insight me trouxe de volta uma cena muito antiga.
     Eu devia ter uns 15 anos e escrevi femenino em algum texto, o que levou uma amiga minha a gargalhar escancaradamente sem que eu entendesse patavinas, para usar uma expressão que ainda existia. Ela ria e dizia: “FeMEnino!!! Quáquáquáquá”, também para usar a gargalhada da época, que não era “kkkkk”.
     Fiquei, então, indignada e confusa, exatamente como me senti ao ler o texto do Nei. E levou um tempo até que eu percebesse que tinha escrito “feminino”, mas em espanhol (sou filha de argentinos e aprendi primeiro o espanhol, depois o português, é bom esclarecer).
     O que aumentava minha confusão é que, enquanto ela ria, vinham-me à cabeça os tantos anos escolares até aquele momento: porque será que ninguém corrigiu isso antes? Será que não calhou de eu ter escrito femenino em nenhuma redação nas aulas de português? Ou os professores relevavam por saber que eu era de família estrangeira? Nada disso fazia muito sentido. O mais provável é que eu alternasse as línguas em algumas palavras, sem perceber, escrevendo às vezes feminino e em outras femenino, e que ninguém tinha corrigido isso antes sabe-se lá porque. Percebi, então, que o mesmo tinha acontecido com a palavra “tarô”.
     A vida toda, na minha casa, nos referimos a esse baralho como Tarot, porque assim é em espanhol. E muitas vezes, embora nem sempre, escrevemos Tarot, com T maiúsculo, porque é uma forma para representar, literariamente, certa reverência. Porém, como gosto e respeito as línguas, bem como o exercício acurado do vocabulário, ainda que deteste o estudo formal da gramática, evidentemente concordo plenamente com o texto do Nei Naiff. Fiquei, no entanto, encalacrada entre essa concordância e o fato de que, ao tentar trocar todos os Tarots por mim escritos (os títulos e afins), por tarôs, simplesmente não consegui. Meu espanhol primordial fica absolutamente incomodado e não consegue submeter-se à grafia em português. Maluco, eu sei, mas assim é para mim. O melhor que posso fazer, portanto, é intitular este blog em espanhol, para justificar minimamente, ao menos no mundo virtual, porquê o meu tarô insiste em ser tarot (esperando que isso chegue até os leitores do meu livro, cujo título, "Tarot Luminar", tampouco mudarei).
     O que tudo isso me fez perceber, é que por vezes ficamos tempo demais tentando decifrar os mistérios filosóficos ou esotéricos sobre "de onde viemos" e "para onde vamos" e invariavelmente esquecemos de relembrar de onde viemos concretamente, investigação que nos dá dados fundamentais para compreender mais claramente parte do que somos e, portanto, do que vivemos no presente.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

REALINHANDO IMPERADORES E IMPERATRIZES



Imagem: http://universoliterario.wordpress.com/2009/10/27/

Vou ao oculista.
Certa apreensão, porque quem o indicou me alertou que ele é um cara seco, antipático, mas muito bom profissional. Bem, antes isso, penso, mas, xi, já vi tudo. Um daqueles "doctors" cheios de se achar isso ou aquilo. Chato.

No caminho, vejo uma longa fileira de casas e tenho uma síndrome de Alice, parece que estou caindo - ou será subindo?
Curioso esse negócio. Será labirintite? Um AVC??? Fígado, deve ser isso. Chá de boldo, é isso.

É tão desnorteante a sensação, que me toma mais minutos que o necessário, até eu perceber o óbvio: é uma ladeira e arquiteto após arquiteto, se é que os houve (coisa que, francamente, não creio), todos tentaram alinhar-se à tal ladeira, sem sucesso. O resultado é um monte de casas com janelas 6 cm tortas, portas quase convexas, portões que não fecham direito. Carros numa garagem, uma roda quase no ar! Uma loucura onde só falta o gato que desaparece, realmente.

Vejo Imperadores e Imperatrizes tresloucados, tomando chás impossíveis nas mesas dessas estranhas salas de estar. Deve ser o calor. Desidratação, talvez, só um pouquinho, é isso.

Então, me vem à mente que assim fazemos, muitas vezes, em nossas vidas: "alinhamos" nosso "eu" tomando por base algo que é, na verdade, torto.
E vejo que quase todos somos como essas casas: um torto após o outro - e todos acreditando que o torto é o outro.

Alinhamentos absolutamente vãos, híbridos.

De que adianta alinhar os chakras, se o coração está destituído de amor fraterno, o único afeto realmente desprovido de interesse? Gostar do outro com esse descomprometimento é, na verdade, gostar de si mesmo incondicionalmente - e é essa a base da saúde fundamental, a psico-espiritual, quase um ato que Jodorowsky chamaria de psicomágico.

De que adianta alinhar os pensamentos com o que chamamos de "positivo", se esses conceitos estão semeados de falácias e natimortos no cerne?

De que adiantam tantas crenças tatuadas na mente, se nem crenças, nem mente, todas contaminadas pela contemporânea estupidez global, conseguem habilitar um olhar isento a nosso próprio respeito?

Que sentido tem alinhar "meditações ayurvédicas" com um ser que exige isto ou aquilo da vida ininterruptamente, em vez de apreciá-la, aqui e ali? Um ser que só se ressente pelo que não obtém, quando podia estar em pleno regozijo, ao menos uma vez por dia, pelo que já recebeu?

Precisamos acertar antes, portanto, as fundações, para que o resto de nosso ser possa alinhar-se com verdadeira majestade. 

Não, não vai ser fácil rever tudo desde o começo, penso, mas e de que é feito afinal o game da vida? Não é de, entre o lúdico e o acadêmico, investigar a si mesmo e ir subindo de "level", ir alcançando melhores estágios?

Chego ao consultório e gargalho, das recepcionistas à saída. Moças ótimas, completamente TeVeguiadas, mas sedentas do novo, acabo quase dando consulta de tarô grátis, ali mesmo. Entro na sala do Dr. João e damos risadas que quase impedem os exames, mas finalmente ele faz a receita dos meus óculos, enquanto me conta que minha pressão ocular está ótima, fundo de olho ótimo, a miopia aumentou quase nada nos ultimos muitos anos, tudo ótimo.

Terá sido ele que mudou de temperamento, ou eu que já mudei no caminho?

texto originalmente postado no blog do Yubliss: http://www.yubliss.com/blog/7262/post/8153